Inválidos sentimentos abstratos desconexos
Invasão diluvial imprudente, imponente, sagaz
Afogo-me na tempestade do meu inferno astral
Desvio meu caráter, mesmo que para isso eu não seja mais eu
E lute contra tudo o que quero e o que desejo
Um beijo de fel dou no meu próprio rosto
Há veneno escorrendo por entre meus dentes
Há sangue quente escorrendo em minhas mãos e o que teima em me restar, bate gélido, sombrio, em meu peito
Queria a coragem de outrora pra lutar
A vontade do passado de viver, a ilusão de sonhar
Queria fantasiar a felicidade de um carnaval
Queria o aperto quente de um sexo selvagem
Queria um abraço forte da pessoa que amo
Queria ter vontade de viver
Sou mutante sombrio, sou a mutação das coisas ruins
Sou a sombra que assola o mundo
O grito nojento do estupro
Sou a alma desacalentada do suicida
Sou a maresia que destrói construções
Sou a morte de tudo o que sinto
Sou eu só e o inferno em que vivo
Onde nem Satanás se faz presente
Sou pior que ele e isso me consola.
Nem Deus tenho por mim.
Me perco no meu mapa de ervas venenosas
Sou o sofrimento dentro de mim
Sou a sombra do porão, a lágrima no chão
Sou triste, ainda que poeta seja.
Bruno Sampaio.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
sábado, 23 de janeiro de 2010
Ela
Deitada, sozinha, se punha a pensar e a nadar em um mar turbulento dentro de si.
Era um misto de sentimentos, vontades, desejos, ansiedades, era um misto tão complexo que mal consigo definir. Estava sozinha dentro de si, em busca de algo que desconhecia, mas que lhe fazia uma falta tão grande, tão grande que a tornava vazia.
Era feliz e sabia disso. E tinha todas as ferramentas para tal, embora se pusesse sempre a buscar, dentro de si, gerar conflitos para mentalmente resolvê-los e, assim, dar ânimo aos seus tediosos dias. Contava os dedos, sempre exatos dez, roia as unhas, nove, pois mantinha uma delas intacta, para soar sonoras e depressivas notas, no violão que herdara de um dos seus relacionamentos turbulentos, assim como todos os relacionamentos a que se dispunha a ter.
Era meiga, sabia disso. Tão meiga quanto inteligente e carismática e orgulhosa. Seus fartos cabelos de um castanho meio ruivo tinham a cor da indefinição, cor que simplesmente a definia. Mas seus cachos eram definidos, bem definidos, bonitos, eram enrolados como os sentimentos e vontades e anseios que tinha dentro de si, que também eram bonitos, mas confusos.
Estava tudo tão confuso dentro dela que mal sei escrever o quanto. Mas ela, sutilmente, escrevia em seu diário algum punhado de palavras, entoava algumas frases, cantava alguns versos, amaldiçoava alguns fantasmas, orava por seus amores. Indefinida, existia sozinha, resumida a infinidade de seus pensamentos, que a tornavam densa, poética e eterna, assim como a palavra, assim como o amor.
Bruno Sampaio.
Era um misto de sentimentos, vontades, desejos, ansiedades, era um misto tão complexo que mal consigo definir. Estava sozinha dentro de si, em busca de algo que desconhecia, mas que lhe fazia uma falta tão grande, tão grande que a tornava vazia.
Era feliz e sabia disso. E tinha todas as ferramentas para tal, embora se pusesse sempre a buscar, dentro de si, gerar conflitos para mentalmente resolvê-los e, assim, dar ânimo aos seus tediosos dias. Contava os dedos, sempre exatos dez, roia as unhas, nove, pois mantinha uma delas intacta, para soar sonoras e depressivas notas, no violão que herdara de um dos seus relacionamentos turbulentos, assim como todos os relacionamentos a que se dispunha a ter.
Era meiga, sabia disso. Tão meiga quanto inteligente e carismática e orgulhosa. Seus fartos cabelos de um castanho meio ruivo tinham a cor da indefinição, cor que simplesmente a definia. Mas seus cachos eram definidos, bem definidos, bonitos, eram enrolados como os sentimentos e vontades e anseios que tinha dentro de si, que também eram bonitos, mas confusos.
Estava tudo tão confuso dentro dela que mal sei escrever o quanto. Mas ela, sutilmente, escrevia em seu diário algum punhado de palavras, entoava algumas frases, cantava alguns versos, amaldiçoava alguns fantasmas, orava por seus amores. Indefinida, existia sozinha, resumida a infinidade de seus pensamentos, que a tornavam densa, poética e eterna, assim como a palavra, assim como o amor.
Bruno Sampaio.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Mexendo no computador do depósito, encontrei esse texto, que foi escrito dia 21 de outubro. Já faz um tempinho. Como amo meus textos frios, textos que leio tempos depois e gosto ou desgosto, resolvi postar esse, que, particularmente, gostei bastante.
Engraçado a quantidade de textos meus que devem ter sido perdidos por aí, pelos computadores e papéis da vida... Mas é isso, né? Na hora, a gente faz o parto e não se preocupa muito em guardar e nem em levar para adoção, enfim, eis ele:
"Eu sempre quis. Com uma obsessão que me era tão particular quanto o modo de querê-lo.
E queria muito. Sonhava com isso noite e dia e imaginava alcançar a todo momento.
Era um tanto quanto inatingível, mas não deixava de esperar, de aguardar pacientemente. Até aos santos recorri, em um ato mais desesperado.
Sempre me senti meio vazio com toda a minha poliqueixose diagnosticada por alguns amigos mais próximos. Talvez as minhas queixas nada mais fossem que uma forma de me preencher, nem que fosse com palavras, já que era tudo um vazio tão sombrio que me assustava.
Não estava acostumado a dormir só, mas também não recorria a companheiros imaginários. Era eu e meus pensamentos naquilo que julgava que me faria feliz. Me sentia confortável ao imaginar situações felizes, me sentia preenchido, acompanhado, dormia com alguém, ou com o desejo de alguém.
Com o tempo as coisas foram piorando e o vazio foi aumentando. Não conseguia mais controlar, era algo que me fugia às mãos e das mãos, a cada dia que passava. Só me culpava pelo que não pudia ser culpado, mas eu era assim, eu sou assim.
E assim, sendo do jeito que sou, sou tão vazio, tão oco, tão só. Só eu e meus pensamentos me acompanham. E eles me criticam, mas são sempre companheiros, diferente do que quero."
Bruno Sampaio.
Engraçado a quantidade de textos meus que devem ter sido perdidos por aí, pelos computadores e papéis da vida... Mas é isso, né? Na hora, a gente faz o parto e não se preocupa muito em guardar e nem em levar para adoção, enfim, eis ele:
"Eu sempre quis. Com uma obsessão que me era tão particular quanto o modo de querê-lo.
E queria muito. Sonhava com isso noite e dia e imaginava alcançar a todo momento.
Era um tanto quanto inatingível, mas não deixava de esperar, de aguardar pacientemente. Até aos santos recorri, em um ato mais desesperado.
Sempre me senti meio vazio com toda a minha poliqueixose diagnosticada por alguns amigos mais próximos. Talvez as minhas queixas nada mais fossem que uma forma de me preencher, nem que fosse com palavras, já que era tudo um vazio tão sombrio que me assustava.
Não estava acostumado a dormir só, mas também não recorria a companheiros imaginários. Era eu e meus pensamentos naquilo que julgava que me faria feliz. Me sentia confortável ao imaginar situações felizes, me sentia preenchido, acompanhado, dormia com alguém, ou com o desejo de alguém.
Com o tempo as coisas foram piorando e o vazio foi aumentando. Não conseguia mais controlar, era algo que me fugia às mãos e das mãos, a cada dia que passava. Só me culpava pelo que não pudia ser culpado, mas eu era assim, eu sou assim.
E assim, sendo do jeito que sou, sou tão vazio, tão oco, tão só. Só eu e meus pensamentos me acompanham. E eles me criticam, mas são sempre companheiros, diferente do que quero."
Bruno Sampaio.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
dis-Faces
Eu não me mostro
Eu não me demonstro
Eu só me abro para a minha poesia
Na face um sorriso aberto, expressivo
No peito uma lagrima latente, pungente
Eu não me abro, eu não me entrego
Eu me escondo, eu me afugento
Eu me abrigo nos meus versos
Eu ouço o som da minha métrica e nele me afogo
Eu me abismo, eu me lanço, eu me choro
Eu não me exponho
Eu sofro só, calado, na calada calada da noite
Eu penso, eu reflito, eu abstraio
Eu me refugio, eu me distraio
Eu sou eu, meu sofrimento e eu mesmo
Para todos, sou felicidade constante, abraços, sou um momento alegre
Para mim sou fracasso, sou abandono, sou solidão
Sou um porto à ver navios
Sou um peixe que nenhuma rede envolve
Sou livre e sou eu mesmo
Sou minha angústia e meu desespero
Sou minha sinceridade e minha vontade de viver
Não, não sou a vontade de viver.
Sou a verdade e isso aniquila tudo isso.
E isso me aniquila.
Bruno Sampaio.
Eu não me demonstro
Eu só me abro para a minha poesia
Na face um sorriso aberto, expressivo
No peito uma lagrima latente, pungente
Eu não me abro, eu não me entrego
Eu me escondo, eu me afugento
Eu me abrigo nos meus versos
Eu ouço o som da minha métrica e nele me afogo
Eu me abismo, eu me lanço, eu me choro
Eu não me exponho
Eu sofro só, calado, na calada calada da noite
Eu penso, eu reflito, eu abstraio
Eu me refugio, eu me distraio
Eu sou eu, meu sofrimento e eu mesmo
Para todos, sou felicidade constante, abraços, sou um momento alegre
Para mim sou fracasso, sou abandono, sou solidão
Sou um porto à ver navios
Sou um peixe que nenhuma rede envolve
Sou livre e sou eu mesmo
Sou minha angústia e meu desespero
Sou minha sinceridade e minha vontade de viver
Não, não sou a vontade de viver.
Sou a verdade e isso aniquila tudo isso.
E isso me aniquila.
Bruno Sampaio.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
lembranças
Essas histórias me deixam mal
Elas têm o cheiro
Têm o sabor da lembrança
Elas têm o prazer do passado, a utopia da esperança
Elas têm um quê de infelicidade, elas têm um pouco de saudade
Elas são acompanhadas do vazio, elas têm a solidão andando de mãos dadas a elas
Elas têm as lágrimas dos fins de semana, elas têm as ligações fraternas intermináveis
Elas têm a angústia do momento ouvido, elas têm a tristeza de um passado vivido
Elas têm o cheiro da pessoa amada, tão longe, tão longe, largada
Elas têm uma vida inteira mais que amada
Elas têm o soluço do pranto do fim
Elas têm a mim.
Elas vivem em mim.
Eu sou ela, eu sou a lembrança de mim.
Sou a representação do fim.
Bruno Sampaio.
Elas têm o cheiro
Têm o sabor da lembrança
Elas têm o prazer do passado, a utopia da esperança
Elas têm um quê de infelicidade, elas têm um pouco de saudade
Elas são acompanhadas do vazio, elas têm a solidão andando de mãos dadas a elas
Elas têm as lágrimas dos fins de semana, elas têm as ligações fraternas intermináveis
Elas têm a angústia do momento ouvido, elas têm a tristeza de um passado vivido
Elas têm o cheiro da pessoa amada, tão longe, tão longe, largada
Elas têm uma vida inteira mais que amada
Elas têm o soluço do pranto do fim
Elas têm a mim.
Elas vivem em mim.
Eu sou ela, eu sou a lembrança de mim.
Sou a representação do fim.
Bruno Sampaio.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
PRETO
O branco me seria mais concreto que qualquer outra cor
Me seria apagado, destruído, acabado
Deletado, pra ser mais moderno, esquecido, pra ser mais adoentado
O branco seria o amor superado
O bobo, abestado
O dono do amor inatingível, o sonhador dos sonhos abstratos
O branco seria a paz
De um espírito distante, amargurado
O branco seria um papel, riscado por uma poesia não coesa
O branco seria tudo e nada, ao mesmo tempo
O branco seria a superação, seria a ação, abstração
O branco me seria simbólico, me seria forte, me seria concreto
Tão concreto quanto o preto, que emagrece
O branco me daria a forma, me seria uma prece
Rezada calada, na calada da noite, com sofrimento bastardo, amor inacabado
O branco seria meu amor, seria minha dor, meu pranto, meu sofrimento
O branco seria colorido, seria incolor, o branco seria o que eu devia sentir
O branco seria Deus, tão desacreditado por mim
O branco seria abstrato, inconcreto, o branco seria um cimento
O branco seria uma viga, uma laje, o branco me seria um traje
Um clamor de mim mesmo
O branco me seria um espelho
O branco me seria um reflexo de alma, o branco seria minha calma
O branco me seria de uma cor de dor
E de alegria
O branco seria o meu amor
Tão amado, tão clamado, tão exaltado
O branco me seria feliz
Mais feliz ainda se dele pudesse esquecer
O branco seria o oposto de tudo o que vivo
O branco seria o barroco neoclássico que surgiria
O branco me apagaria
O branco não seria o preto
Que me consome em seu luto, em sua falta de cor,
De amor.
Bruno Sampaio
(Acho que esse foi o texto que escrevi e publiquei com o menor intervalo de tempo, de todos, nem esperei esfriar)
Me seria apagado, destruído, acabado
Deletado, pra ser mais moderno, esquecido, pra ser mais adoentado
O branco seria o amor superado
O bobo, abestado
O dono do amor inatingível, o sonhador dos sonhos abstratos
O branco seria a paz
De um espírito distante, amargurado
O branco seria um papel, riscado por uma poesia não coesa
O branco seria tudo e nada, ao mesmo tempo
O branco seria a superação, seria a ação, abstração
O branco me seria simbólico, me seria forte, me seria concreto
Tão concreto quanto o preto, que emagrece
O branco me daria a forma, me seria uma prece
Rezada calada, na calada da noite, com sofrimento bastardo, amor inacabado
O branco seria meu amor, seria minha dor, meu pranto, meu sofrimento
O branco seria colorido, seria incolor, o branco seria o que eu devia sentir
O branco seria Deus, tão desacreditado por mim
O branco seria abstrato, inconcreto, o branco seria um cimento
O branco seria uma viga, uma laje, o branco me seria um traje
Um clamor de mim mesmo
O branco me seria um espelho
O branco me seria um reflexo de alma, o branco seria minha calma
O branco me seria de uma cor de dor
E de alegria
O branco seria o meu amor
Tão amado, tão clamado, tão exaltado
O branco me seria feliz
Mais feliz ainda se dele pudesse esquecer
O branco seria o oposto de tudo o que vivo
O branco seria o barroco neoclássico que surgiria
O branco me apagaria
O branco não seria o preto
Que me consome em seu luto, em sua falta de cor,
De amor.
Bruno Sampaio
(Acho que esse foi o texto que escrevi e publiquei com o menor intervalo de tempo, de todos, nem esperei esfriar)
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Incrível como a palavra "pulsar" aparece com tanta freqüência naquilo que escrevo. Às vezes, me impressiono. Escrevi esse texto hoje, numa aula de Metodologia do Trabalho Acadêmico:
Era um eterno pulsar de desconfiança. Tudo: a vida, os estudos, o amor. Desconfiava de si e dos outros com uma maestria assustadora.
Tentava objetividade, em vão. A prolixidade existencial lhe era tão arraigada que lhe definia.
Era um Decartismo eterno: se punha em dúvida sobre tudo.
Desconfiada, andava, com seus passos pesados, tristes, acompanhantes de uma sinfonia fúnebre.
Queria amor. Na verdade, queria ser amada, queria que uma alma viva, mesmo que por caridade, demonstrasse amor por ela. Ela não se amava, não cuidava de si, os cabelos desgrenhados e secos eram testemunhas de seus maus tratos interiores que se refletiam em sua casca. E apenas assim se via: como uma casca. Uma casca inóspita, vazia, oca, quase inexistente.
Tentava, por vezes, fingir segurança, mas sempre falhava. Gaguejava, roía-se, olhava um alvo abstrato, mas nada lhe valia, ou servia.
Suas colunas de sustentação interior já estavam destruídas demais. Nem um aspecto saudável conseguia manter.
Quando chegasse em casa, choraria em cima de seu travesseiro, já úmido, e tentaria se consolar em seu pranto. Sabia que permaneceria assim para sempre, até o fim, que, certamente, já estava bem próximo.
Bruno Sampaio.
Era um eterno pulsar de desconfiança. Tudo: a vida, os estudos, o amor. Desconfiava de si e dos outros com uma maestria assustadora.
Tentava objetividade, em vão. A prolixidade existencial lhe era tão arraigada que lhe definia.
Era um Decartismo eterno: se punha em dúvida sobre tudo.
Desconfiada, andava, com seus passos pesados, tristes, acompanhantes de uma sinfonia fúnebre.
Queria amor. Na verdade, queria ser amada, queria que uma alma viva, mesmo que por caridade, demonstrasse amor por ela. Ela não se amava, não cuidava de si, os cabelos desgrenhados e secos eram testemunhas de seus maus tratos interiores que se refletiam em sua casca. E apenas assim se via: como uma casca. Uma casca inóspita, vazia, oca, quase inexistente.
Tentava, por vezes, fingir segurança, mas sempre falhava. Gaguejava, roía-se, olhava um alvo abstrato, mas nada lhe valia, ou servia.
Suas colunas de sustentação interior já estavam destruídas demais. Nem um aspecto saudável conseguia manter.
Quando chegasse em casa, choraria em cima de seu travesseiro, já úmido, e tentaria se consolar em seu pranto. Sabia que permaneceria assim para sempre, até o fim, que, certamente, já estava bem próximo.
Bruno Sampaio.
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